sexta-feira, 3 de abril de 2009
Caso H.M - Resumo

Henry Gustav Molaison,mais conhecido como H.M, foi o homem que ficou famoso mundialmente e mais examinado na história da neurociência. H.M,nasceu no dia 26 de fevereiro de 1926, em Hartford, filho de um eletricista acádio de Thibodeux,e de mãe irlandesa. Em 1983, foi submetido a uma cirurgia no cérebro para corrigir ataques epileticos que iniciou apos ter sofrido uma queda de bicicleta quando tinha apenas 9 anos de idade. A cirurgia removeu dois dedos dos tecidos dos hesmisférios direito e esqeurdo,cortando profundamente o hipocampo, no intuito de diminuir os ataques que estavam frenquentes,fortes e as dores insuportavéis. E o que é hipocampo? é uma estrutura localizada nos lobos temporais do cérebro humano, considerada a principal sede da memória e importante componente do sistema límbico. Sua função é de inverter a memória de curto prazo em memória de longo prazo, como também uma interação com as amigdalas estando mais envolvidas nas questões emocionais. Ocorrendo uma lesão no hipocampo o individuo não conseguirá construir o engrama estrutural, ou seja, novas memórias. De fato, os ataques tornaram-se menos frequentes, mas, trouxe outros danos para vida do paciente. H.M, não conseguia lembrar dos momento recentes de sua vida, cada rosto era eternamente novo para ele. O que ele absorvia ficava em sua mente por apenas 20 segundos, mas ainda assim sua inteligência básica era incomparável. Ele foi vitima de uma "amnésia profunda", ou, para dar o termo técnico, amnésia anterógrada severa e amnésia retrograda parcial. Ele não conseguia lembra momentos ocorridos em apenas 20 segundo e também não conseguia lembrar-se do momento da lesão. E o que é amnésia anterograda e retrograda? A anterograda: é aquela subseqüente de um trauma cerebral, a pessoa tem dificuldade ou incapacidade de se lembrar de eventos recentes, mas consegue se lembrar, quase que perfeitamente, de eventos ocorridos antes do trauma. A retrograda: é aquela que a pessoa consegue se lembrar de eventos posteriores ao trauma, mas não consegue se lembrar de eventos anteriores ao trauma cerebral. Ocorreu ainda uma lesão na área de broca e de Wernicke. Irei defini-las: afasia de Wernicke: está ligada a parte sensoria,consegue falar, mas sua maior dificuldando é a compreensão. Afasia de broca: está ligada a parte motora, consegue compreender, mas não consegue expressar. E tanto uma como a outra, localizam-se no hemisferio esquerdo do nosso cérebro. H.M só lembrava dos 17 anos para tras. Imaginem os conflitos psicológicos vividos por este homem.
H. M , foi acompanhado por diversos especialista da neurociência, um deles foi, Milner que passou a visita-lo regularmente e chegou a conclusão que a função da memória, assumia-se, era distribuída pelo cérebro e não dependente de uma região ou órgão neural. "O estudo seminal de Milner, baseado em seu trabalho com HM, foi publicado em 1962. Ele revelou que há pelo menos dois sistemas no cérebro responsáveis por criar memórias; um subconsciente, do "aprendizado motor", pelo qual as pessoas podem se lembrar como executar tarefas básicas, tais como andar de bicicleta; o outro, da memória declarativa, armazena fatos e experiências até que sejam lembrados conscientemente. Esse se baseia no hipocampo, parte do qual tinha sido removida do cérebro de HM". E assim viveu 50 anos tentando a cada dia colaborar e desenvolver as tarefas que davam para ele, chegando a falecer ano passado e doou seu cérebro deixando para nós um grande exmplo e a possibilidade de grandes descobertas para o avanço da neurociência.
quarta-feira, 18 de março de 2009
Estudo dirigido...

Definir :
1) Plasticidade Cerebral
2) Memória declarativa (explícita)
3) Memória não-declarativa (implícita)
4) Memória de curto prazo
5) Memória de longo prazo
6) Memória de trabalho
7) Engrama - (dinâmico e estrutural) – excitação em circuito – potencialização pós-tetânica
8) Amnésia anterógrada
9) Amnésia retrógrada
10) Analise o texto sobre o “fenômeno madeleine de Proust” e discorra sobre a influência das emoções e dos sentimentos sobre a aquisição e evocação de memórias declarativas. Dê ênfase às relações do hipocampo e das amígdalas nesse processo.
11- Fale sobre as áreas de associação cerebrais correlacionando com o papel principal exercido por cada lobo cerebral.
12-Comente sobre o papel do córtex sobre o sistema límbico, destacando a relação comportamento versus conduta.
13- Comente sobre o papel do sistema límbico sobre o comportamento agressivo e social.
14- Explique as sensações emocionais com base no circuito de papez.
15- A Memória é um processo ativo. Esta afirmação é:
A. falsa, porque a memória está livre da interferência de sentimentos ou vivências;
B. verdadeira, porque a memória envolve um processo de desdobramento da informação;
C. falsa, porque a memória reproduz fielmente a realidade, tal qual ela se apresenta;
D. verdadeira, porque a memória envolve um processo de transformação da informação.
16- Para que a informação fique guardada na memória a longo prazo, é necessário que ela seja:
A. repetida e recordada;
B. visualizada e fixada;
C. recordada e deslocada;
D. repetida e codificada.
O que é a doença de Alzheimer?

A doença de Alzheimer é a mais comum das chamadas demências degenerativas, ou seja, doenças progressivas que são caracterizadas por dificuldade de memória (prejuízo da capacidade de aprender novas informações ou de recordar informações anteriormente aprendidas), associada a diversos déficits cognitivos (ver adiante), os quais levam ao comprometimento das funções sociais e funcionais do indivíduo. As alterações cognitivas podem se manifestar na forma de afasia (dificuldade ou incapacidade para falar ou para compreender o que é falado, escrito ou gesticulado), apraxia (ou seja, comprometimento na capacidade de executar determinadas movimentos voluntários e propositados, apesar de não haver alteração de força, sensibilidade ou de compreensão para realização das mesmas), agnosia (incapacidade de reconhecer e de identificar objetos e de saber para que servem, apesar das funções sensitivas intactas) e comprometimento das funções executivas, como planejamento, organização e elaboração de pensamentos abstratos.
Alterações de personalidade e de afeto estão freqüentemente associadas a estes sintomas. No entanto, o nível de consciência permanece preservado até estágios mais avançados da doença.
Que doença é essa?
Foi descrita pela primeira vez pelo médico Alois Alzheimer, em 1907.
Essa doença é erroneamente conhecida pela população como “esclerose” ou “caduquice”.
Mas é uma forma de demência cuja causa não se relaciona com a circulação ou com a arteriosclerose. É devida à morte das células cerebrais que levam à uma atrofia do cérebro.
A doença de Alzheimer é a causa mais comum de declínio das funções mentais do idoso em todo o mundo, representando um grande problema não só para os pacientes afetados mas também para as pessoas que cuidam desses pacientes (familiares ou não).
A doença de Alzheimer acarreta a perda progressiva das funções intelectuais do indivíduo.
O declínio das funções mentais na doença de Alzheimer leva ao prejuízo da memória, afetando simultaneamente alguma outra função intelectual (por exemplo, a linguagem, a capacidade de cálculo e/ou aprendizado, entre outras) ou ainda uma alteração no comportamento.
A doença de Alzheimer atinge as células nervosas do cérebro, principalmente aquelas relacionadas à memória e ao comportamento.
O início da doença é de difícil percepção, já que normalmente ocorre de maneira gradual, sendo as primeiras manifestações relacionadas a falhas de memória. No começo, são os pequenos esquecimentos, normalmente aceitos pelos familiares como parte do processo normal de envelhecimento, que vão se agravando gradualmente.
Os pacientes tornam-se confusos e por vezes agressivos, passam a apresentar alterações de personalidade, com distúrbios de conduta e terminam por não reconhecer os próprios familiares e até a si mesmos, quando colocados frente a um espelho.
À medida que a doença evolui, tornam-se cada vez mais dependentes de terceiros, iniciam-se as dificuldades de locomoção, a comunicação se inviabiliza e passam a necessitar de cuidados e supervisão integra, até mesmo para as atividades elementares do cotidiano como alimentação, higiene, vestir, etc.
Sabe-se que a doença afeta cerca de 5% da população com mais de 65 anos de idade. Atualmente, 17 a 25 milhões de pessoas no mundo todo são afetadas pela doença de Alzheimer. Estima-se que nos EUA existam cerca de quatro milhões de pacientes portadores da doença, e no Brasil, aproximadamente um milhão. Para pacientes e familiares a doença de Alzheimer tem conseqüências físicas e emocionais. O declínio das funções intelectuais e as alterações do comportamento na doença fazem com que o paciente perca aos poucos a capacidade de realizar as tarefas rotineiras, ou seja, as atividades do dia-a-dia, tornando-o cada vez mais dependente de cuidados, levando a uma grande sobrecarga para o cuidador.
A causa da doença de Alzheimer ainda não é conhecida pela ciência.
Existem várias teorias, porém de concreto, aceita-se que seja uma doença geneticamente determinada, não necessariamente hereditária (transmissão entre familiares).
Todas as pessoas com dificuldade de memória têm demência? Elas irão desenvolver a doença de Alzheimer?
Não. Para que se estabeleça o diagnóstico de demência é necessário que o déficit de memória seja suficientemente importante para interferir com as capacidades funcionais do indivíduo. A doença pode ser difícil de diagnosticar em pessoas idosas, nas quais dificuldade de memória é comum - é necessário acompanhamento para que se determine a deterioração das capacidades funcionais. Muitas vezes, o próprio paciente com demência é incapaz de perceber adequadamente as suas habilidades cognitivas - ele/ela não se queixa da dificuldade de memória, sendo necessárias informações complementares dos familiares próximos. Estudos demonstram que queixas de memória da maioria das pessoas não se correlacionam adequadamente com seus níveis funcionais e não são preditivos do desenvolvimento de demência. As queixas de dificuldade de memória e de "esquecimentos" em pessoas muito preocupados são geralmente relacionadas com traços de personalidade do indivíduo ou com depressão. O relato de um familiar ou do companheiro/a de que o indivíduo com queixa de memória é capaz de realizar as suas funções com a mesma habilidade anterior auxilia na identificação de idosos não demenciados, enquanto que a observação pelo familiar de comprometimento, ainda que leve, da capacidade funcional devido a alterações cognitivas é um indicador sensível de futuro desenvolvimento de demência.
Doença de Alzheimer e demência são sinônimos?
Não. O termo "demência" é usado para descrever uma síndrome (ou seja, um conjunto de sinais e de sintomas), a qual é caracterizada por perda progressiva das funções intelectuais adquiridas, como, por exemplo, memória, linguagem, capacidade de pensamento abstrato, decorrente de uma série de patologias distintas. Estima-se que de 50 a 80% dos casos de demência sejam devidos a à doença de Alzheimer. Além desta, outras patologias podem levar a demência, como demência fronto-temporal (a qual inclui a esclerose lateral amiotrófica com demência), demência com corpos de Lewy, doença de Pick, doenças vasculares, hidrocefalia, traumatismos cranianos, doenças infecciosas (como, por exemplo, doença de Whipple, sífilis e AIDS), doença de Parkinson, doenças degenerativas do sistema nervoso central (tais como doença de Huntingdon, paralisia supranuclear progressiva, degeneração nigro-estriatal, degeneração espinocerebelar, doença de Hallervorden-Spatz, leucodistrofias), doença de Creutzfeld-Jakob, esclerose múltipla, neoplasias, doenças endócrinas (como hipotireioidismo, hipercalcemia e hipoglicemia), doenças imunológicas (lúpus eritematoso sistêmico e outras vasculites), deficiências nutricionais (carência de tiamina, niacina e vitamina B12), uso crônico de álcool ou de outras drogas, insuficiência renal e hepática e a síndrome demencial associada a depressão. Cada uma destas patologias tem suas peculiaridades, sinais e sintomas distintos, que permitem ao médico diferenciar uma da outra. Da mesma forma, elas têm evoluções e tratamentos também diferentes, motivo pelo qual é tão importante que se estabeleça o diagnóstico correto, permitindo melhor prognóstico do paciente. Algumas destas doenças são facilmente excluídas pelos dados da história, da evolução ou do exame físico; para outras, no entanto, são necessários exames adicionais. A seleção destes deve ser individualizada de acordo com o caso - ver mais adiante.
Dez sinais de alerta sobre a doença de Alzheimer
1 perda da memória recente afetando a capacidade de trabalho;
2 dificuldade em desempenhar tarefas familiares;
3 problemas de linguagem;
4 desorientação no tempo e no espaço;
5 diminuição na capacidade de decisão;
6 problemas com o pensamento abstrato;
7 confundir os lugares das coisas;
8 mudanças na personalidade;
9 mudanças no humor e comportamento;
10 perda de iniciativa.
http://www.classiclife.com.br/medicina/med_0004a.html
Memória

A memória traz em si um filtro poderoso para nos possibilitar esquecer, senão enlouqueceríamos, explica Ivan Izquierdo, neurocientista, pesquisador da UFRGS, autor de “Questões sobre memória” e “A arte de esquecer” (Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 21.ago.2004, Revista Vida, n. 37, p. 16). O aspecto mais notável da memória é o esquecimento, diz James Megaugh, professor de neurobiologia da Universidade da Califórnia. A formação e a evocação de memórias ocupam muitas células neurais, e torna-se preciso liberar espaço. Esse espaço é saturável, diz Izquierdo, e é impossível medi-lo.
A ciência divide a memória em vários tipos, segundo a duração e o conteúdo das lembranças. A mais efêmera chama-se memória de trabalho, com duração de segundos ou minutos após um evento. Dura apenas o necessário para realizar uma tarefa. A memória de curta duração dura de uma a seis horas. A memória de longa duração promove modificações bioquímicas em diversas regiões cerebrais para possibilitar o arquivo permanente.
As memórias de longa duração podem ser subdivididas: 1) declarativas; e 2) procedurais ou não-declarativas.
As memórias declarativas podem ser exprimidas verbalmente. Subdividem-se em memória epsódica (de momentos marcantes, associados a estados emocionais) e em memória semântica (um conhecimento memorizado ao longo da vida, mas sem associação a um evento específico: Brasília é a capital do Brasil).
As memórias não-declarativas não podem ser verbalizadas. Também subdividem-se em duas: a memória do condicionamento (faz-nos frear ao sinal vermelho) e a memória de hábitos (por se repetirem tanto, as atividades tornam-se automáticas: caminhar, andar de bicicleta).
Três fatores colaboram para uma memorização eficiente: a atenção, a motivação para realizar determinada tarefa, no caso de aprendizado, e a carga afetiva ou emocional, explica Ricardo Oliveira de Souza, neuropsiquiatra. A melhor ‘ginástica’ para o cérebro é uma atividade intelectual prazerosa, diz ele. Em adultos sem doenças neurológicas e jovens, a queixa de memória ruim geralmente se deve a distúrbios de ansiedade ou estresse, diz Ricardo.
Com o passar dos anos, as lembranças mais antigas ficam mais nítidas em relação às recentes, pois foram fixadas num tempo com melhor funcionamento das conexões neurais, explica Sérgio Schmidt, neurofisiologista. Nenhuma substância tem eficácia comprovada para melhorar a memória, diz ele.
Existem pessoas com 80 anos e memória fantástica, e jovens com dificuldade de lembrar, observa Izquierdo. Ninguém precisa de remédio para a memória. A leitura é uma espécie de natação para o cérebro. Exercita a memória, a só tempo, em suas várias faces: de trabalho, de longo prazo, visual, auditiva, a linguagem e a criatividade. A TV seria como um ‘fast-food’, pois apresenta informações prontas, digeridas.
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O cérebro é estimulado pela atividade, ou seja, quanto mais se memoriza conteúdo, mais ele é capaz de armazenar informações, de acordo com Geraldo Possendoro, psiquiatra e pesquisador em psicobiologia na UNIFESP (Folha de S. Paulo, São Paulo, 08 ago. 2006, Fovest - Especial, p. 3/4).
O armazenamento da informação deve ser resistente. A repetição do conteúdo melhora a memorização, segundo Ana Alvarez, fonoaudióloga, doutora em ciências, autora do livro ´Deu branco`. Muitas vezes, a pessoa acha ter dificuldade de memorizar, mas, na verdade, o problema está no entendimento da matéria. O problema do ´branco´ (continua Ana Alvarez) pode acontecer por ansiedade, nervosismo ou estresse, como o medo de falhar e a pressão colocada pelas pessoas sobre si mesmas (id.).
Quanto mais a pessoa fazer associação, mais facilidade terá para lembrar, diz Sonia Brucki, neurologista, integrante do grupo de neurologia cognitiva e do comportamento do Hospital das Clínicas de São Paulo. Relacionar ajuda a gravar fatos (id.).
O estudante deve ir para a prova centrado na razão, e não no lado emocional. Se a energia está muito voltada para o emocional, o cérebro não consegue desenvolver o cognitivo, afirma Maria Irene Maluf, presidente da Associação Brasileira de Psicopedagogia (id.).
São dicas para evitar o ´branco´: 1) antes de começar a prova, faça um breve relaxamento, respirando profundamente; 2) comece pelas questões envolvendo os assuntos sobre os quais tenha mais domínio; 3) procure lembrar-se do contexto no qual aprendeu a matéria (o professor, a aula); 4) mantenha a serenidade, pois o pânico só aumenta a descarga excessiva de adrenalina e gera mais problemas para o cérebro; 5) ler num ambiente calmo, manter a atenção voltada ao estudo e dormir bem podem ajudar na memorização das matérias; 6) tentar relembrar o conteúdo depois de estudar, fazer exercícios e repetir em voz alta são formas de testar se as informações foram bem fixadas (id.).
Os tipos de memória são: 1) memória de curto prazo e memória de trabalho; 2) memória de longo prazo, subdivida em (2.1.) explícita e (2.2.) implícita (memória para procedimentos, como andar de bicicleta, jogar futebol, dar nó em gravata). A memória de longo prazo explícita abrange: (2.1.1.) episódica (armazena eventos relacionados ao tempo) e (2.1.2.) semântica (armazena conceitos e significado de palavras) (id.).
Constitui desafio para os neurocientistas compreender o mecanismo cerebral pelo qual se ligam cerca de 100 bilhões de neurônios, organizados em unidades maiores para armazenar ou alterar as memórias.
A memória imediata do ser humano pode envolver-se com sete informações ao mesmo tempo, mas apenas uma delas irá transformar-se em conhecimento adquirido, segundo o Massachusetts Institute of Technology (MIT).
Mnemósine, deusa grega da Memória, mãe das Musas, é a raiz de todas as artes humanas, da história à astronomia.
LATERALI- 1
Lateralidade e dominância cerebral: abordagem histórica
Ao longo da história das neurociências muitos dos conhecimentos acerca dos fundamentos biológicos dos comportamentos humanos têm surgido estreitamente ligados ao conceito de lateralização hemisférica ou dominância cerebral, isto é, às diferenças de funções entre os dois hemisférios do cérebro.
Na verdade, a organização do cérebro em dois hemisférios, direito e esquerdo, parece ter como corolário que cada uma destas suas partes tem a seu cargo os acontecimentos motores e sensoriais que ocorrem na metade oposta (contralateral) do corpo e do espaço. Esta regra geral, se bem que um tanto esquemática e redutora (hoje reconhece-se que a complexidade do cérebro, um super-sistema aberto e que integra em si muitos outros sistemas diferenciados e complexos não se compadece com estes "reducionismos" simplistas) levou à ideia de que cada indivíduo, dotado de um grande potencial cerebral, utiliza o seu cérebro de uma forma particular. Assim, enquanto alguns se apoiariam mais nas capacidades do seu hemisfério esquerdo, parecendo dar prioridade à análise, ao raciocínio e à lógica, outros, pelo contrário, mais apoiados no seu hemisfério direito, dariam prioridade à síntese, à intuição, à visão global e à imaginação .
Esta noção de "dominância cerebral" apresenta um interesse teórico considerável e coloca uma multiplicidade de questões quanto aos seus caracteres, à sua origem, ao seu significado e, embora tenha uma "história já antiga", funcionalmente associada com a "história da afasia" , só recentemente foram enunciados e abordados com clareza os seus fundamentos neurobiológicos, sob o impulso do neurologista americano Norman Geschwind que, aliando os seus conhecimentos enciclopédicos a um espírito de síntese e intuitivo fora do comum, soube abrir um amplo campo de reflexões e de investigação e fazer, com razão, do conceito de dominância cerebral um ramo de parte inteira das Neurociências que em muito ultrapassa o terreno da Biologia.
Broca e a dominância do hemisfério esquerdo para a linguagem
Se bem que o homem pareça ter-se apaixonado desde a mais remota Antiguidade e ao longo de toda a sua história pela questão das diferenças entre lado direito e lado esquerdo, só em 1865 surgiu aquela que parece ter sido a primeira demonstração científica duma desigualdade de função entre os dois hemisférios cerebrais. Com efeito, nesse ano, o cirurgião parisiense Paul Broca apresentou perante a Sociedade de Antropologia uma série de argumentos comprovativos de que "a perda da faculdade da linguagem articulada" estava ligada a uma lesão situada no hemisfério esquerdo, mais precisamente na parte posterior da circunvolução frontal inferior (área do cérebro hoje conhecida por "área de Broca"), sugerindo uma ligação entre uma função cerebral, a linguagem falada, e uma parte específica do cérebro, o seu hemisfério esquerdo. Mais tarde, no ano de 1876, Karl Wernicke descobriu que a lesão de uma parte diferente do cérebro, no seu hemisfério esquerdo, causava também problemas na linguagem mas mais ao nível da compreensão do que da expressão. Essa área, hoje conhecida por "área de Wernicke", situa-se na parte posterior do lobo temporal e parece encontrar-se conectada à área de Broca através de um conjunto de fibras nervosas designadas por "arcuate fasciculus" .
Estava assim "reconhecida" a lateralização hemisférica da linguagem que, todavia, parece ter sido "descoberta" algumas décadas antes (1834-1835) por Mark Dax, um médico de província dotado de um excelente espírito de observação e que, embora não tendo formulado qualquer teoria a propósito nem se tenha enquadrado em nenhum movimento científico relevante, descreveu um conjunto de três dezenas de doentes que apresentavam uma associação entre a afasia e a paralisia dos seus membros direitos . Aliás, de acordo com alguns relatos de Benton , é provável que observações idênticas tenham sido feitas muito antes, havendo referências muito antigas à concordância da paralisia dos membros direitos com os defeitos da linguagem, observação que qualquer profissional de saúde minimamente observador, que trabalhe num serviço em que existem doentes com lesões cerebrais, não deixa de constatar. Broca, porém, tinha um modelo de estudo, a teoria frenológica de Franz Gall, que propunha a existência de órgãos capazes de produzirem funções psicológicas isoladas e, no essencial, a sua contribuição consistiu em dizer que esses órgão não se distribuíam simetricamente pelos dois hemisférios, mas que a função da linguagem existia só no lado esquerdo do cérebro. Na sequência dos trabalhos de Broca, entretanto, surge mais tarde, em 1864, um texto de John Hughlings Jackson, neurologista inglês responsável por importantes descobertas relacionadas com a epilepsia, a relatar a perda da fala na sequência de lesões cerebrais do hemisfério esquerdo ao mesmo tempo que, por volta de 1870, Liepman confirmava que uma lesão nessas mesmas áreas cerebrais produzia ataxia, isto é, a incapacidade de realização de movimentos voluntários, mas apenas quando o paciente era instruído para a realização de tais movimentos.
Estas "descobertas" tiveram obviamente um grande impacto na ciência da época e, a partir daí, muitas foram as sugestões de que, tal como a linguagem era própria do pensamento humano, a assimetria funcional se tornava própria do cérebro humano e, por isso mesmo, o hemisfério esquerdo, detentor de uma capacidade que o direito não tinha, se tornava o "hemisfério dominante". Broca sugeria mesmo que podia existir uma ligação entre esta descoberta e o fato de se ser dextro ou canhoto, sugestão que, apesar de simplista e bastante afastada daquilo que hoje se sabe sobre esta realidade, levou ao aparecimento de preconceitos e atitudes de discriminação dos canhotos que perduram ainda no conhecimento popular .
Lateralização da linguagem vs preferência manual
A "preferência" manual, isto é, o fato de se utilizar uma das mãos mais do que a outra numa maioria de tarefas, associada a uma maior "competência" ou habilidade e força da "mão preferida" relativamente à sua oposta (conceitos subjacentes à ideia de "lateralidade" ou "manualidade", traduções frequentes do termo anglo-saxónico "handedness"), passou então a ser considerada como a manifestação mais simples e mais evidente da "dominância cerebral": o hemisfério esquerdo, que dirige a motricidade fina da mão direita, constitui para a maior parte da população o hemisfério dominante para esta atividade. Esta noção levou mesmo ao aparecimento de questionários e outros instrumentos para "medir a manualidade", como é o caso do Edinburgh Handedness Inventory , entre outros, que se impuseram como um meio simples para avaliar, na prática diária, este aspecto da lateralização funcional e cujos resultados, obtidos em estudos realizados em diversos países, apontam para a probabilidade de os dextros representarem mais de 90% dos indivíduos, qualquer que seja o seu meio cultural (embora apenas 70% da população pareça ser de "dextros puros", ou seja, que efetuam todos os atos exclusivamente com a mão direita), tendo esta constatação permitido o aparecimento de algumas teorias acerca da "origem biológica" desta distribuição .
No entanto, o estudo dos "canhotos", que se aparentava como um terreno potencialmente frutuoso para abordar os mecanismos da dominância cerebral, parece levantar mais problemas do que apontar soluções. Na verdade, como confirmaram os estudos realizados já nos anos 60 com o teste de Wada , ou "Intracarotid Sodium Amobarbital Procedure (ISAP)", técnica inventada em 1949 pelo físico Juhn Wada e que permite anular momentaneamente a função de uma determinado região cerebral quando se injeta directamente na artéria que a irriga uma solução de amital sódico , parece que a organização do cérebro do canhoto, longe de ser a imagem em espelho da do dextro, possui as suas próprias características que parecem resultar, mais do que de regras diferentes das do dextro, da ausência dos mecanismos presentes neste último . Estes estudos, de fato, hoje confirmados pelas mais modernas técnicas de neuroimagem, como a Ressonância Magnética Funcional (fMRI) ou a Tomografia por Emissão de Positrões (PET), mostraram que o hemisfério esquerdo é responsável pelos processos da linguagem na enorme maioria dos dextros mas também o é em mais de metade dos canhotos e ambidextros . Como diz Caldas, pode, por isso, dizer-se que "lateralidade dextra e a lateralização da linguagem do hemisfério esquerdo são fenômenos que se associam com grande frequência mas cuja associação não constitui uma relação funcional", sendo possível que se trate de "duas características independentes, geneticamente determinadas"
Assim, a ligação que Broca pressentia entre lateralização da linguagem e preferência manual, se é verdadeira para os dextros, revelou-se inexata ou pelo menos de natureza diferente para os canhotos. Por estranho que pareça, no entanto, só cerca de um século depois de ter sido descrita esta assimetria funcional dos dois hemisférios cerebrais é que surgiram os primeiros relatos sobre as suas diferenças anatômicas, como veremos a seguir.
Funções do hemisfério direito
Ao longo dos tempos, depois das descobertas de Broca, vários estudos desenvolvidos para a compreensão dos casos de afasia se realizaram e acabaram por trazer mais suportes para a ideia de um "hemisfério dominante". Alguns desses suportes teóricos vieram dos estudos realizados com pacientes que sofreram lesões cerebrais, enquanto outros provinham do estudo de sujeitos com graves crises de epilepsia que eram tratados com a remoção lesional de pequenas parcelas de massa cerebral na região atingida, como foi o caso dos vários estudos desenvolvidos por Penfield e colegas nos anos 50 .
As evidências desses estudos, porém, apontavam para que as lesões no hemisfério esquerdo de sujeitos dextros resultam em afasia para 60% dos casos comparados com 2% se as lesões ocorrerem no hemisfério direito, ao mesmo tempo que nos canhotos as lesões no hemisfério esquerdo produzem afasia em aproximadamente 30% dos pacientes contra 24% dos lesionados no hemisfério direito. Estes dados acabaram por levar à pesquisa das funções específicas do hemisfério direito que, apesar de considerado "inferior" relativamente ao seu hemisfério contralateral, parecia coordenar funções não menos importantes.
Assim, para além da descoberta de que as lesões do hemisfério direito produzem alterações na compreensão semântica da linguagem bem como na sua prosódia (entoação, pausas, etc.) quer semântica quer emocional (cariz emocional da linguagem falada), uma das principais anomalias encontradas em numerosos indivíduos que sofreram uma lesão hemisférica direita é a perda de certas capacidades perceptivas, em particular as que dizem respeito à percepção das relações espaciais entre os objetos (apraxia visuoconstrutiva). A estas dificuldades acrescenta-se, com frequência, uma outra situação bem conhecida e que consiste na incapacidade de um paciente com lesão hemisférica direita manipular o espaço próximo em virtude de uma síndrome de heminegligência esquerda (neglect), fazendo com que apenas seja tida em conta a parte direita do seu campo visual e/ou do seu próprio espaço corporal, dificuldade que se manifesta no fato do indivíduo ter tendência para ignorar os estímulos do seu hemicorpo esquerdo, podendo mesmo chegar à perda total da sua consciência (hemiassomatognosia).
O hemisfério direito do cérebro, além disso, parece também coordenar importantes funções relacionadas com a aprendizagem de certas categorias de estímulos que têm em comum o necessitar de um tratamento rápido e global da informação, como é o caso do reconhecimento de rostos, função frequentemente afetada em pessoas com lesão hemisférica direita (prosopagnosia), sendo também importante o seu papel na memória espacial ou topográfica. Por outro lado, ainda, é hoje reconhecido por todos que a lesão do hemisfério direito cerebral provoca com muita frequência uma perturbação profunda da personalidade e da afetividade, produzindo no indivíduo uma indiferença afetiva muito característica .
O estudo de sujeitos com "cérebro dividido" (split-brain)
O conhecimento da distribuição das funções por cada um dos hemisférios cerebrais desenvolveu-se, fundamentalmente, na sequência de estudos realizados com pacientes calasotomizados, ou seja, pacientes a quem foi feita uma calosomia (seccionamento do corpo caloso) como forma de tratamento cirúrgico de epilepsias graves, tentando impedir a disseminação da actividade epiléptica de um lado do cérebro para o outro. O estudo nesses pacientes parecem também mostrar que cada hemisfério é capaz de funcionar independentemente quando os dois são isolados um do outro
Entre os investigadores que utilizaram este tipo de estudos destaca-se, sem dúvida, Roger Sperry que, em meados da década de 1960, iniciou uma série de estudos em animais com "cérebro dividido" e depois os alargou ao estudo com humanos, trabalho que lhe viria a permitir a obtenção do prêmio Nobel em 1981 .
A história da investigação em pessoas com "cérebro dividido", porém, começou muito antes de Sperry , havendo referências que se reportam já a trabalhos desenvolvidos por Fechner, no século XVIII, um dos pioneiros da psicologia experimental que acreditava que se as duas metades do cérebro fossem divididas longitudinalmente pelo meio poderia produzir-se algo como a duplicação de um ser humano . Por outro lado, tudo indica que a primeira intervenção cirúrgica de seccionamento do corpo caloso para separação cirúrgica dos dois hemisférios cerebrais se realizou em 1940 por intermédio de William VanWagenen. Além destes, por sua vez, também os trabalhos desenvolvidos por Penfield, Roberts e colegas (1959) no tratamento de epilepsias graves parecia apontar para a utilidade deste tipo de patologias no estudo da dominância cerebral. Sperry e colegas, no entanto, desenvolveram procedimentos de avaliação pelos quais se introduz informação num ou noutro hemisfério de sujeitos com "cérebro dividido", podendo as respostas de qualquer um dos hemisférios ser observadas independentemente. No método usado por estes investigadores, a informação é introduzida no cérebro a partir do campo visual direito ou esquerdo (ver gravura em http://www.epub.org.br/cm/n15/mente/lateralidade.html) e, enquanto o sujeito fixa um ponto central, um estímulo (por exemplo uma palavra) é rapidamente mostrado durante apenas 0,1s para eliminar alterações do campo visual provenientes de movimentos oculares. Com estas investigações, Sperry e colegas acabam por concluir que cada hemisfério desligado se comportava como se não estivesse consciente dos acontecimentos cognitivos do hemisfério parceiro. Segundo as suas próprias palavras , "cada metade cerebral parecia ter o seu próprio domínio cognitivo, em grande medida independente, com as suas próprias experiências perceptivas privadas de aprendizagem e memória, estando todas elas aparentemente esquecidas dos acontecimentos correspondentes no outro hemisfério".
O trabalho desenvolvido por Sperry, apesar de algumas generalizações excessivas, foi depois continuado e aprofundado por autores como Michael Gazzaniga (seu colaborador directo), Bogen e Vogel, autores que, de alguma forma, apesar de confirmarem a especificidade de cada hemisfério cerebral na coordenação de funções cognitivas e motoras, procuraram demonstrar que, mesmo após o seccionamento do corpo caloso, os dois hemisférios cerebrais continua a comunicar um com o outro de alguma maneira.
Geschwind e a descrição morfológica das assimetrias cerebrais
Norman Geschwind é também uma referência obrigatória quando se pretende estudar a história da lateralização hemisférica cerebral. Este autor, na verdade, num curto artigo publicado em 1968 com o seu colega Levitsky , reactualizou a questão das assimetrias cerebrais e lançou ao mesmo tempo as bases de toda uma corrente científica respeitante à biologia da dominância cerebral. Num trabalho anatómico que abrangeu 100 cérebros de indivíduos normais, dissecados de maneira a abrir o rego de Sylvius, estes autores estudaram a superfície triangular situada atrás da área auditiva primária, o planum temporale, e mostraram que esta era nitidamente mais desenvolvida do lado esquerdo em 65% dos cérebros. Nos outros casos, por sua vez, esta estrutura apresentava-se simétrica ou ligeiramente assimétrica a favor do lado direito. Sublinhando que esta área cortical se integra na chamada área de Wernicke, que tem um papel preponderante nos aspectos sensoriais da linguagem (mas apenas no hemisfério esquerdo), Geschwind sugeria que talvez esta assimetria seja o suporte morfológico da assimetria funcional da linguagem, conhecida desde os tempos de Dax e Broca (mais de um século antes).
Este estudo, na verdade, constituiu-se como que um ponto de partida para a exploração de outras assimetrias estruturais, partindo-se da hipótese de que se a assimetria do planum temporale pode ser relacionada com a dominância do hemisfério esquerdo para a linguagem também outras possíveis assimetrias se poderão correlacionar com a lateralização de outras funções hemisféricas.
A teoria de Geschwind baseia-se então no postulado de que a dominância cerebral está fundamentalmente ligada à existência de assimetrias anatômicas em geral e de que em particular a dominância do hemisfério esquerdo para a linguagem tem um laço essencial com a assimetria do planum temporale . Admitindo a existência, na maioria dos indivíduos, duma tendência para a dominância do HE para a linguagem e para a lateralidade manual, Geschwind imaginava, no entanto, que em certas circunstâncias, (nomeadamente diversas influências hormonais, como a maior ou menor quantidade de testosterona durante o período de gestação), esta tendência podia ser contrariada, diminuindo o grau de assimetria, admitindo mesmo que esta dominância se poderia estabelecer de forma aleatória numa parte da população.
Uma visão global
Em termos globais, uma análise dos processos cognitivos parece assim indicar que mesmo as funções mais complexas do cérebro são localizadas. No entanto, a questão da função ser uma propriedade localizada ou uma propriedade do conjunto do sistema nervoso parece ser uma questão dialética, dependendo a resposta do interesse do pesquisador e da abordagem experimental particular.
A verdade é que as modernas técnicas de neuroimagem, que nos permitem observar in vivo o funcionamento do cérebro em tempo real, durante a execução de tarefas cognitivas ou comportamentais, levam-nos hoje à visão integrada de um cérebro entendido como um super-sistema de sistemas, organizado numa dupla vertente de especialização e integração. Neste sentido, nenhuma parte do sistema nervoso funciona do mesmo modo isolada como o faz com as outras partes em interação e, ao mesmo tempo, mesmo nas tarefas simples múltiplas áreas do córtex são ativada em simultâneo.
A história da lateralização hemisférica ainda não terminou. No entanto, poderemos talvez concluir, para já, que não há um hemisfério "dominante" e outro inferior ou "dominado". O que há é dois hemisférios complementares, necessitando um do outro na realização de tarefas desde as mais simples atividades reflexas até aos mais elaborados raciocínios ou atos de criação artística.
Ao longo da história das neurociências muitos dos conhecimentos acerca dos fundamentos biológicos dos comportamentos humanos têm surgido estreitamente ligados ao conceito de lateralização hemisférica ou dominância cerebral, isto é, às diferenças de funções entre os dois hemisférios do cérebro.
Na verdade, a organização do cérebro em dois hemisférios, direito e esquerdo, parece ter como corolário que cada uma destas suas partes tem a seu cargo os acontecimentos motores e sensoriais que ocorrem na metade oposta (contralateral) do corpo e do espaço. Esta regra geral, se bem que um tanto esquemática e redutora (hoje reconhece-se que a complexidade do cérebro, um super-sistema aberto e que integra em si muitos outros sistemas diferenciados e complexos não se compadece com estes "reducionismos" simplistas) levou à ideia de que cada indivíduo, dotado de um grande potencial cerebral, utiliza o seu cérebro de uma forma particular. Assim, enquanto alguns se apoiariam mais nas capacidades do seu hemisfério esquerdo, parecendo dar prioridade à análise, ao raciocínio e à lógica, outros, pelo contrário, mais apoiados no seu hemisfério direito, dariam prioridade à síntese, à intuição, à visão global e à imaginação .
Esta noção de "dominância cerebral" apresenta um interesse teórico considerável e coloca uma multiplicidade de questões quanto aos seus caracteres, à sua origem, ao seu significado e, embora tenha uma "história já antiga", funcionalmente associada com a "história da afasia" , só recentemente foram enunciados e abordados com clareza os seus fundamentos neurobiológicos, sob o impulso do neurologista americano Norman Geschwind que, aliando os seus conhecimentos enciclopédicos a um espírito de síntese e intuitivo fora do comum, soube abrir um amplo campo de reflexões e de investigação e fazer, com razão, do conceito de dominância cerebral um ramo de parte inteira das Neurociências que em muito ultrapassa o terreno da Biologia.
Broca e a dominância do hemisfério esquerdo para a linguagem
Se bem que o homem pareça ter-se apaixonado desde a mais remota Antiguidade e ao longo de toda a sua história pela questão das diferenças entre lado direito e lado esquerdo, só em 1865 surgiu aquela que parece ter sido a primeira demonstração científica duma desigualdade de função entre os dois hemisférios cerebrais. Com efeito, nesse ano, o cirurgião parisiense Paul Broca apresentou perante a Sociedade de Antropologia uma série de argumentos comprovativos de que "a perda da faculdade da linguagem articulada" estava ligada a uma lesão situada no hemisfério esquerdo, mais precisamente na parte posterior da circunvolução frontal inferior (área do cérebro hoje conhecida por "área de Broca"), sugerindo uma ligação entre uma função cerebral, a linguagem falada, e uma parte específica do cérebro, o seu hemisfério esquerdo. Mais tarde, no ano de 1876, Karl Wernicke descobriu que a lesão de uma parte diferente do cérebro, no seu hemisfério esquerdo, causava também problemas na linguagem mas mais ao nível da compreensão do que da expressão. Essa área, hoje conhecida por "área de Wernicke", situa-se na parte posterior do lobo temporal e parece encontrar-se conectada à área de Broca através de um conjunto de fibras nervosas designadas por "arcuate fasciculus" .
Estava assim "reconhecida" a lateralização hemisférica da linguagem que, todavia, parece ter sido "descoberta" algumas décadas antes (1834-1835) por Mark Dax, um médico de província dotado de um excelente espírito de observação e que, embora não tendo formulado qualquer teoria a propósito nem se tenha enquadrado em nenhum movimento científico relevante, descreveu um conjunto de três dezenas de doentes que apresentavam uma associação entre a afasia e a paralisia dos seus membros direitos . Aliás, de acordo com alguns relatos de Benton , é provável que observações idênticas tenham sido feitas muito antes, havendo referências muito antigas à concordância da paralisia dos membros direitos com os defeitos da linguagem, observação que qualquer profissional de saúde minimamente observador, que trabalhe num serviço em que existem doentes com lesões cerebrais, não deixa de constatar. Broca, porém, tinha um modelo de estudo, a teoria frenológica de Franz Gall, que propunha a existência de órgãos capazes de produzirem funções psicológicas isoladas e, no essencial, a sua contribuição consistiu em dizer que esses órgão não se distribuíam simetricamente pelos dois hemisférios, mas que a função da linguagem existia só no lado esquerdo do cérebro. Na sequência dos trabalhos de Broca, entretanto, surge mais tarde, em 1864, um texto de John Hughlings Jackson, neurologista inglês responsável por importantes descobertas relacionadas com a epilepsia, a relatar a perda da fala na sequência de lesões cerebrais do hemisfério esquerdo ao mesmo tempo que, por volta de 1870, Liepman confirmava que uma lesão nessas mesmas áreas cerebrais produzia ataxia, isto é, a incapacidade de realização de movimentos voluntários, mas apenas quando o paciente era instruído para a realização de tais movimentos.
Estas "descobertas" tiveram obviamente um grande impacto na ciência da época e, a partir daí, muitas foram as sugestões de que, tal como a linguagem era própria do pensamento humano, a assimetria funcional se tornava própria do cérebro humano e, por isso mesmo, o hemisfério esquerdo, detentor de uma capacidade que o direito não tinha, se tornava o "hemisfério dominante". Broca sugeria mesmo que podia existir uma ligação entre esta descoberta e o fato de se ser dextro ou canhoto, sugestão que, apesar de simplista e bastante afastada daquilo que hoje se sabe sobre esta realidade, levou ao aparecimento de preconceitos e atitudes de discriminação dos canhotos que perduram ainda no conhecimento popular .
Lateralização da linguagem vs preferência manual
A "preferência" manual, isto é, o fato de se utilizar uma das mãos mais do que a outra numa maioria de tarefas, associada a uma maior "competência" ou habilidade e força da "mão preferida" relativamente à sua oposta (conceitos subjacentes à ideia de "lateralidade" ou "manualidade", traduções frequentes do termo anglo-saxónico "handedness"), passou então a ser considerada como a manifestação mais simples e mais evidente da "dominância cerebral": o hemisfério esquerdo, que dirige a motricidade fina da mão direita, constitui para a maior parte da população o hemisfério dominante para esta atividade. Esta noção levou mesmo ao aparecimento de questionários e outros instrumentos para "medir a manualidade", como é o caso do Edinburgh Handedness Inventory , entre outros, que se impuseram como um meio simples para avaliar, na prática diária, este aspecto da lateralização funcional e cujos resultados, obtidos em estudos realizados em diversos países, apontam para a probabilidade de os dextros representarem mais de 90% dos indivíduos, qualquer que seja o seu meio cultural (embora apenas 70% da população pareça ser de "dextros puros", ou seja, que efetuam todos os atos exclusivamente com a mão direita), tendo esta constatação permitido o aparecimento de algumas teorias acerca da "origem biológica" desta distribuição .
No entanto, o estudo dos "canhotos", que se aparentava como um terreno potencialmente frutuoso para abordar os mecanismos da dominância cerebral, parece levantar mais problemas do que apontar soluções. Na verdade, como confirmaram os estudos realizados já nos anos 60 com o teste de Wada , ou "Intracarotid Sodium Amobarbital Procedure (ISAP)", técnica inventada em 1949 pelo físico Juhn Wada e que permite anular momentaneamente a função de uma determinado região cerebral quando se injeta directamente na artéria que a irriga uma solução de amital sódico , parece que a organização do cérebro do canhoto, longe de ser a imagem em espelho da do dextro, possui as suas próprias características que parecem resultar, mais do que de regras diferentes das do dextro, da ausência dos mecanismos presentes neste último . Estes estudos, de fato, hoje confirmados pelas mais modernas técnicas de neuroimagem, como a Ressonância Magnética Funcional (fMRI) ou a Tomografia por Emissão de Positrões (PET), mostraram que o hemisfério esquerdo é responsável pelos processos da linguagem na enorme maioria dos dextros mas também o é em mais de metade dos canhotos e ambidextros . Como diz Caldas, pode, por isso, dizer-se que "lateralidade dextra e a lateralização da linguagem do hemisfério esquerdo são fenômenos que se associam com grande frequência mas cuja associação não constitui uma relação funcional", sendo possível que se trate de "duas características independentes, geneticamente determinadas"
Assim, a ligação que Broca pressentia entre lateralização da linguagem e preferência manual, se é verdadeira para os dextros, revelou-se inexata ou pelo menos de natureza diferente para os canhotos. Por estranho que pareça, no entanto, só cerca de um século depois de ter sido descrita esta assimetria funcional dos dois hemisférios cerebrais é que surgiram os primeiros relatos sobre as suas diferenças anatômicas, como veremos a seguir.
Funções do hemisfério direito
Ao longo dos tempos, depois das descobertas de Broca, vários estudos desenvolvidos para a compreensão dos casos de afasia se realizaram e acabaram por trazer mais suportes para a ideia de um "hemisfério dominante". Alguns desses suportes teóricos vieram dos estudos realizados com pacientes que sofreram lesões cerebrais, enquanto outros provinham do estudo de sujeitos com graves crises de epilepsia que eram tratados com a remoção lesional de pequenas parcelas de massa cerebral na região atingida, como foi o caso dos vários estudos desenvolvidos por Penfield e colegas nos anos 50 .
As evidências desses estudos, porém, apontavam para que as lesões no hemisfério esquerdo de sujeitos dextros resultam em afasia para 60% dos casos comparados com 2% se as lesões ocorrerem no hemisfério direito, ao mesmo tempo que nos canhotos as lesões no hemisfério esquerdo produzem afasia em aproximadamente 30% dos pacientes contra 24% dos lesionados no hemisfério direito. Estes dados acabaram por levar à pesquisa das funções específicas do hemisfério direito que, apesar de considerado "inferior" relativamente ao seu hemisfério contralateral, parecia coordenar funções não menos importantes.
Assim, para além da descoberta de que as lesões do hemisfério direito produzem alterações na compreensão semântica da linguagem bem como na sua prosódia (entoação, pausas, etc.) quer semântica quer emocional (cariz emocional da linguagem falada), uma das principais anomalias encontradas em numerosos indivíduos que sofreram uma lesão hemisférica direita é a perda de certas capacidades perceptivas, em particular as que dizem respeito à percepção das relações espaciais entre os objetos (apraxia visuoconstrutiva). A estas dificuldades acrescenta-se, com frequência, uma outra situação bem conhecida e que consiste na incapacidade de um paciente com lesão hemisférica direita manipular o espaço próximo em virtude de uma síndrome de heminegligência esquerda (neglect), fazendo com que apenas seja tida em conta a parte direita do seu campo visual e/ou do seu próprio espaço corporal, dificuldade que se manifesta no fato do indivíduo ter tendência para ignorar os estímulos do seu hemicorpo esquerdo, podendo mesmo chegar à perda total da sua consciência (hemiassomatognosia).
O hemisfério direito do cérebro, além disso, parece também coordenar importantes funções relacionadas com a aprendizagem de certas categorias de estímulos que têm em comum o necessitar de um tratamento rápido e global da informação, como é o caso do reconhecimento de rostos, função frequentemente afetada em pessoas com lesão hemisférica direita (prosopagnosia), sendo também importante o seu papel na memória espacial ou topográfica. Por outro lado, ainda, é hoje reconhecido por todos que a lesão do hemisfério direito cerebral provoca com muita frequência uma perturbação profunda da personalidade e da afetividade, produzindo no indivíduo uma indiferença afetiva muito característica .
O estudo de sujeitos com "cérebro dividido" (split-brain)
O conhecimento da distribuição das funções por cada um dos hemisférios cerebrais desenvolveu-se, fundamentalmente, na sequência de estudos realizados com pacientes calasotomizados, ou seja, pacientes a quem foi feita uma calosomia (seccionamento do corpo caloso) como forma de tratamento cirúrgico de epilepsias graves, tentando impedir a disseminação da actividade epiléptica de um lado do cérebro para o outro. O estudo nesses pacientes parecem também mostrar que cada hemisfério é capaz de funcionar independentemente quando os dois são isolados um do outro
Entre os investigadores que utilizaram este tipo de estudos destaca-se, sem dúvida, Roger Sperry que, em meados da década de 1960, iniciou uma série de estudos em animais com "cérebro dividido" e depois os alargou ao estudo com humanos, trabalho que lhe viria a permitir a obtenção do prêmio Nobel em 1981 .
A história da investigação em pessoas com "cérebro dividido", porém, começou muito antes de Sperry , havendo referências que se reportam já a trabalhos desenvolvidos por Fechner, no século XVIII, um dos pioneiros da psicologia experimental que acreditava que se as duas metades do cérebro fossem divididas longitudinalmente pelo meio poderia produzir-se algo como a duplicação de um ser humano . Por outro lado, tudo indica que a primeira intervenção cirúrgica de seccionamento do corpo caloso para separação cirúrgica dos dois hemisférios cerebrais se realizou em 1940 por intermédio de William VanWagenen. Além destes, por sua vez, também os trabalhos desenvolvidos por Penfield, Roberts e colegas (1959) no tratamento de epilepsias graves parecia apontar para a utilidade deste tipo de patologias no estudo da dominância cerebral. Sperry e colegas, no entanto, desenvolveram procedimentos de avaliação pelos quais se introduz informação num ou noutro hemisfério de sujeitos com "cérebro dividido", podendo as respostas de qualquer um dos hemisférios ser observadas independentemente. No método usado por estes investigadores, a informação é introduzida no cérebro a partir do campo visual direito ou esquerdo (ver gravura em http://www.epub.org.br/cm/n15/mente/lateralidade.html) e, enquanto o sujeito fixa um ponto central, um estímulo (por exemplo uma palavra) é rapidamente mostrado durante apenas 0,1s para eliminar alterações do campo visual provenientes de movimentos oculares. Com estas investigações, Sperry e colegas acabam por concluir que cada hemisfério desligado se comportava como se não estivesse consciente dos acontecimentos cognitivos do hemisfério parceiro. Segundo as suas próprias palavras , "cada metade cerebral parecia ter o seu próprio domínio cognitivo, em grande medida independente, com as suas próprias experiências perceptivas privadas de aprendizagem e memória, estando todas elas aparentemente esquecidas dos acontecimentos correspondentes no outro hemisfério".
O trabalho desenvolvido por Sperry, apesar de algumas generalizações excessivas, foi depois continuado e aprofundado por autores como Michael Gazzaniga (seu colaborador directo), Bogen e Vogel, autores que, de alguma forma, apesar de confirmarem a especificidade de cada hemisfério cerebral na coordenação de funções cognitivas e motoras, procuraram demonstrar que, mesmo após o seccionamento do corpo caloso, os dois hemisférios cerebrais continua a comunicar um com o outro de alguma maneira.
Geschwind e a descrição morfológica das assimetrias cerebrais
Norman Geschwind é também uma referência obrigatória quando se pretende estudar a história da lateralização hemisférica cerebral. Este autor, na verdade, num curto artigo publicado em 1968 com o seu colega Levitsky , reactualizou a questão das assimetrias cerebrais e lançou ao mesmo tempo as bases de toda uma corrente científica respeitante à biologia da dominância cerebral. Num trabalho anatómico que abrangeu 100 cérebros de indivíduos normais, dissecados de maneira a abrir o rego de Sylvius, estes autores estudaram a superfície triangular situada atrás da área auditiva primária, o planum temporale, e mostraram que esta era nitidamente mais desenvolvida do lado esquerdo em 65% dos cérebros. Nos outros casos, por sua vez, esta estrutura apresentava-se simétrica ou ligeiramente assimétrica a favor do lado direito. Sublinhando que esta área cortical se integra na chamada área de Wernicke, que tem um papel preponderante nos aspectos sensoriais da linguagem (mas apenas no hemisfério esquerdo), Geschwind sugeria que talvez esta assimetria seja o suporte morfológico da assimetria funcional da linguagem, conhecida desde os tempos de Dax e Broca (mais de um século antes).
Este estudo, na verdade, constituiu-se como que um ponto de partida para a exploração de outras assimetrias estruturais, partindo-se da hipótese de que se a assimetria do planum temporale pode ser relacionada com a dominância do hemisfério esquerdo para a linguagem também outras possíveis assimetrias se poderão correlacionar com a lateralização de outras funções hemisféricas.
A teoria de Geschwind baseia-se então no postulado de que a dominância cerebral está fundamentalmente ligada à existência de assimetrias anatômicas em geral e de que em particular a dominância do hemisfério esquerdo para a linguagem tem um laço essencial com a assimetria do planum temporale . Admitindo a existência, na maioria dos indivíduos, duma tendência para a dominância do HE para a linguagem e para a lateralidade manual, Geschwind imaginava, no entanto, que em certas circunstâncias, (nomeadamente diversas influências hormonais, como a maior ou menor quantidade de testosterona durante o período de gestação), esta tendência podia ser contrariada, diminuindo o grau de assimetria, admitindo mesmo que esta dominância se poderia estabelecer de forma aleatória numa parte da população.
Uma visão global
Em termos globais, uma análise dos processos cognitivos parece assim indicar que mesmo as funções mais complexas do cérebro são localizadas. No entanto, a questão da função ser uma propriedade localizada ou uma propriedade do conjunto do sistema nervoso parece ser uma questão dialética, dependendo a resposta do interesse do pesquisador e da abordagem experimental particular.
A verdade é que as modernas técnicas de neuroimagem, que nos permitem observar in vivo o funcionamento do cérebro em tempo real, durante a execução de tarefas cognitivas ou comportamentais, levam-nos hoje à visão integrada de um cérebro entendido como um super-sistema de sistemas, organizado numa dupla vertente de especialização e integração. Neste sentido, nenhuma parte do sistema nervoso funciona do mesmo modo isolada como o faz com as outras partes em interação e, ao mesmo tempo, mesmo nas tarefas simples múltiplas áreas do córtex são ativada em simultâneo.
A história da lateralização hemisférica ainda não terminou. No entanto, poderemos talvez concluir, para já, que não há um hemisfério "dominante" e outro inferior ou "dominado". O que há é dois hemisférios complementares, necessitando um do outro na realização de tarefas desde as mais simples atividades reflexas até aos mais elaborados raciocínios ou atos de criação artística.
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